Os caminhos da Água e suas relações: um diálogo entre Brasil e Noruega
The paths of Water and their relations: a dialogue between Brazil and Norway
Natalia Carvalho MÉDICI MACHADO1
1 Doutoranda em Ciências Sociais, Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (CPDA/UFRRJ) – natalia.cmedici@gmail.com
RESUMO
Este artigo compara as interações entre comunidades indígenas e seus rios na Noruega e no Brasil, focando nas comunidades Sami de Máze e na Aldeia Maraka’nà do Rio de Janeiro, explorando como suas relações com os rios Alta e Maracanã moldam identidades, autonomia e territorialidade. Através de práticas e conhecimentos ancestrais, essas comunidades demonstram uma visão holística do ambiente, contrastando com a perspectiva moderna predominante. Na Noruega, os Sami enfrentaram a construção de uma usina hidrelétrica que ameaçava seu território e modo de vida; no Brasil, a Aldeia Maraka’nà lida com a poluição do rio Maracanã e a falta de acesso à água potável, impactando diretamente sua autonomia e práticas culturais. Os movimentos de ressurgência étnica em ambas as comunidades valorizam especificidades culturais e relações com o território, oferecendo modelos alternativos de sustentabilidade e coexistência harmoniosa com a natureza. O artigo sugere que a mudança de uma visão utilitarista para uma compreensão holística do ambiente é essencial para enfrentar as mudanças climáticas e garantir a sobrevivência das comunidades e da biodiversidade.
Palavras chave: territorialidade; povos originários, relação humano natureza
ABSTRACT
This article compares the interactions between indigenous communities and their rivers in Norway and Brazil, focusing on the Sami communities of Máze and Aldeia Maraka’nà in Rio de Janeiro. It explores how their relationships with the Alta and Maracanã rivers shape identities, autonomy, and territoriality. Through ancestral practices and knowledge, these communities demonstrate a holistic view of the environment, contrasting with the predominant modern perspective. In Norway, the Sami faced the construction of a hydroelectric plant that threatened their territory and way of life; in Brazil, the Maraka’nà Village deals with the pollution of the Maracanã River and the lack of access to potable water, directly impacting their autonomy and cultural practices. Ethnic resurgence movements in both communities value cultural specificities and relationships with the territory, offering alternative models of sustainability and harmonious coexistence with nature. The article suggests that shifting from a utilitarian view to a holistic understanding of the environment is essential to address climate change and ensure the survival of communities and biodiversity.
Keywords: territoriality ; indigenous groups ; human-nature relationship
Nascentes: Introdução
A história de sociedades humanas é sempre uma história de suas interações. A formação de grupos sociais, como grupos étnicos, é feita a partir de interações estabelecidas tanto entre os atores do grupo, compartilhando critérios de valoração e juízo, e atores de fora do grupo, de onde se estabelecem as distinções (BARTH, 1976).
Pode-se entender a própria etnicidade como um aspecto da interação humana, além de uma propriedade dessa formação social particular que são os grupos étnicos. As próprias especificidades culturais, entendendo também a cultura como aspecto dessa interação contínua, desses grupos étnicos são influenciadas pela natureza experiencial das relações étnicas.(ERIKSEN, 1991)
Algumas dessas interações também se dão na relação entre humano e não humano. Pela óptica Moderna, apenas atores humanos são dotados de agência e produtores de testemunhos (LATOUR, 2012). Contudo, para melhor compreender o humano e as suas sociedades, é também necessário compreender suas múltiplas relações com o não-humano. Uma análise centrada apenas em relações humanas não sempre dá conta da realidade de todas as coletividades humanas, uma vez que estas também se redefinem a partir de suas relações com os não-humanos que compõem o seu meio (HOUDART, 2015).
A realidade humana é envolvida pelos ambientes nos quais ela se desenrola (HOUDART, 2015). Este ambiente a ameaça, envolve, permite a vida, cria diferenciação e pertencimento, em suma, estabelece relações entre si e com humanos. Um aspecto fundamental desse ambiente é a água e a interação que humanos estabelecem com ela. A relação humano-água, que pode ser entendida enquanto recurso natural indispensável à vida, mas também como um ator não humano em constante relação com atores humanos.
Essa visão acerca dos não humanos enquanto em constante relação com humanos é uma virada ontológica relativamente recente da sociologia que busca um contraponto ao antropoceno e a modernidade. Porém, a especial atenção à relação entre humanos e não humanos estava presente em diferentes cosmogonias indígenas.
As cosmovisões e cosmogonias indígenas supracitadas frequentemente se baseiam nessas relações entre humanos e não humanos para conformar seus territórios e representações coletivas acerca desse território. Essa noção de território autóctone não passa por uma noção jurídico-política de território, fruto de uma concepção específica e herdada da Modernidade de Estado-nação, mais se aproximando da concepção de território enquanto conjunto de objetos e ações, sinônimo de espaço humano e habitado, podendo ser formado no período contemporâneo por lugares contíguos e lugares em rede. Logo, esse território é uma construção política e histórica, é o chão mais a identidade, sendo a territorialidade uma qualidade de pertencimento a esse chão mais identidade. (SANTOS, 2000)
O presente artigo busca explorar a relação entre humanos e não humanos tendo como foco dois casos; a relação entre a população Sami de Máze e o rio de Alta e a relação entre a Aldeia Maraka’nà e o rio Maracanã, observando como essa relação conforma questões de etnicidade, autonomia e território
Metodologia
O presente artigo busca explorar a relação entre humanos e não humanos, focando em dois casos: a relação entre a população Sami de Máze e o rio Alta na Noruega, e a relação entre a Aldeia Maraka’nà e o rio Maracanã no Rio de Janeiro, Brasil. Através de um trabalho etnográfico com as comunidades, análise documental e uma revisão bibliográfica, o estudo observa como essas relações conformam questões de etnicidade, autonomia e território.
A pesquisa busca compreender como as práticas e conhecimentos ancestrais dessas comunidades contribuem para uma visão holística do ambiente, em contraste com a perspectiva utilitarista predominante na modernidade e oferecem modelos alternativos de sustentabilidade e coexistência harmoniosa com a natureza, enfatizando a necessidade urgente de uma mudança de perspectiva para enfrentar os desafios climáticos e garantir a sobrevivência das comunidades e da biodiversidade.
Aldeia Maraka’nà
A Aldeia Maraka’nà, situada na zona norte da cidade do Rio de Janeiro e vizinha ao estádio Maracanã, é uma ocupação indígena urbana de caráter pluriétnico. A ocupação se dá no casarão conhecido como “Antigo Museu do Índio”, mas a ligação do espaço com a cultura indígena é anterior à criação do museu.
Seu nome, Maraka’nà, primeiro remete ao estádio do qual a Aldeia é vizinha, o Estádio Jornalista Mário Filho, mais conhecido por Maracanã. Esse nome de origem indígena, que significa o pássaro que fez um barulho similar ao maracá, instrumento de agitação indígena, nomeia também toda a região ao redor e vem do rio Maracanã, que banha a região.
A ocupação começa, ainda que incipiente, em 2004 quando houve a primeira tentativa de ocupação do terreno, motivada por uma busca de “parentes”, como comumente chamam outros indígenas, na cidade do Rio de Janeiro, e em busca de um espaço para discutir políticas públicas para povos originários. A tentativa foi frustrada por falta de adesão (SANTOS, 2019). Ela só se concretizou em outubro de 2006, após um congresso indígena na Universidade Estadual do Rio de Janeiro, vizinha do prédio do antigo Museu do Índio, realizado por um grupo de indígenas e apoiadores. Desde então, a ocupação passou por diversos momentos: em 2010, começaram a surgir planos de demolição do casarão feitos pelo governo do estado do Rio de Janeiro, para obras de reformulação do estádio Maracanã, vizinho da ocupação de mesmo nome, necessárias para realização da Copa Mundial de Futebol de 2014. Na ocasião, a ocupação recebeu seu nome atual de “Aldeia Maraka’nà”, em 2013 o prédio foi desocupado por forças policiais e em 2017 ele voltou a ser ocupado pelos indígenas.
Vizinha ao rio Maracanã, rio bastante poluído que tem como voz o Maciço da Tijuca e deságua na baía de Guanabara, o acesso à água sempre foi um ponto importante na vida e permanência da ocupação.
Previa a desocupação, os indígenas dependiam da doação de água e energia elétrica feita pela LANAGRO, unidade do Laboratório Nacional Agropecuário (LANAGRO), ligado ao antigo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), que dividia o antigo terreno do Museu do Índio com a ocupação.
Porém, após a desocupação de 2013 e a demolição da unidade da LANAGRO como parte do plano urbanístico para a região, os indígenas, ao retornarem a ocupação em 2017, passaram a depender de caminhões pipa para suas atividades. Com isso, atividades cotidianas de banho, cozinha e banheiro eram ditadas pela disponibilidade ou não da água proveniente do caminhão pipa, que era periodicamente cotizado entre indígenas e apoiadores da Aldeia.
O caso de Alta
A região de Alta, no norte da Noruega, é habitada pela população Sami desde, pelo menos, o século XVI, segundo registros do início dos anos 1700 de trocas comerciais de peixes entre Samis e a parte ocidental do norte de Finnmark, norte da Noruega (HANSEN, 2017).
Nesse período, a economia Sami começava o processo de modificar sua estrutura, aliando a pesca ao pastoreio de renas, modificando o antigo costume de caçar esses animais. É possível também encontrar registros ainda mais antigos da presença Sami na região de Alta, em especial no rio de Alta, onde a taxação de migração de 1593 consta a migração Sami dos fiordes de Alta para o rio de Alta para pesca do salmão(HANSE, 2017).
Percebe-se, então, que a relação de Samis com a região de Alta é bem antiga. A própria identidade coletiva Sami está relacionada com as narrativas criadas sobre esses espaços comuns circulados pelos Samis em Sápmi, seu território, e vão além de uma identidade nacional ligada ao conceito moderno de Estado-Nação (VIALLON, 2018).
Essa relação especial com o território Sápmi de Alta foi motivador de uma série de protestos entre 1979 e 1982 contrários a criação de uma usina hidroelétrica na região, que implicaria na construção de uma grande represa no lugar onde se localiza uma comunidade Sami, a vila de Mazé. Esses eventos culminaram no primeiro grande ato pelo direito de autodeterminação Sami e é considerado um dos grandes eventos marcantes para formação da identidade coletiva Sami contemporânea. (VIALLON, 2018)
A planta hidroelétrica foi eventualmente construída, após intensos protestos e batalhas jurídicas, porém em muito menor escala. Além disso, a maior vitória política foi a formação de um ativismo político sami com grande visibilidade dentro da Noruega e internacionalmente.
Muohta: a Neve no Chão e o que Ela Conta
Geleiras podem ser entendidas como livros de história. As diferentes camadas de gelo presentes em uma geleira antiga nos mostram condições climáticas, de solo e temperatura de tempos distantes, considerando que o gelo se forma de maneira diferente a depender da temperatura, pressão, poluição, radiação solar, ventos e outras intempéries climáticas.
Gelo, neve, geadas, geleiras, congelamento e nevascas são parte importante da cultura e forma de vida Sami. A localização do território ancestral Sápmi, na fronteira norte da Noruega, Suécia, Finlândia e Rússia, favorece essa relação próxima com a água em seu estado mais sólido e baixas temperaturas e possibilitam sua forma de vida tradicional desde tempos imemoriais, segundo eles.
Essa relação com o gelo rendeu um sistema de conhecimento tradicional milenar sobre as condições climáticas da região que baseia e possibilita a forma de vida Sami na região. O clima e a neve são decisivos para a condição de sobrevivência das renas, animal cujo pastoreio é basilar na organização social sami, e por isso são observados bem de perto. (EIRA, 2022)
Conhecimentos sobre o gelo e a neve, capacidade de ler diariamente o clima, prever a temporada de nevascas, observar a relação do rebanho com a neve e seu local de pastoreio são essenciais para o sucesso do pastoreio das renas. Esses conhecimentos, passados de geração em geração, formam um sistema de conhecimento sobre gelo e neve único dos Samis.
Esse sistema de conhecimento é comunicado a partir da língua sami, que expressa toda complexidade dos saberes tradicionais sobre gelo com pelo menos 318 conceitos relacionados a gelo e neve, com palavras para designar diferentes tipos de neve e condições da neve. (EIRA, 2022)
Nesse sentido, essa relação estabelecida entre samis e a neve em seu território influência especificidades culturais de seu grupo étnico, influenciando sua forma de vida, sistema tradicional de conhecimento e língua.
A compreensão a respeito do gelo também inclui o sistema de conhecimento sobre pastoreio de renas, já que este não seria possível sem um profundo conhecimento das condições climáticas da região. Eles conformam uma forma de pensar própria Sami, englobando uma gama de disciplinas como geologia, geografia, meteorologia, hidrologia, biologia, topografia, bem estar animal, pastoreio e estratégias de adaptação ao clima e ao terreno. (EIRA, 2022)
Com isso, cada tipo de neve conceituada pela língua Sami provê um conhecimento único sobre o meio no qual estão inseridos e como essa neve afeta o rebanho, tendo em mente que a neve é enormemente afetada por condições climáticas como vento, temperatura, pressão atmosférica e radiação solar. A análise precisa da primeira nevasca da temporada, por exemplo, é essencial para compreender como será o inverno, já que as condições nas quais a neve primeiro precipita no terreno propiciam diferentes camadas de gelo sobre o solo e afetam de diferentes maneiras o pasto onde as renas do rebanho de alimentam. Além dela, a leitura das diferentes camadas de neve e gelo que cobrem o solo em diferentes áreas durante diferentes épocas do ano também são essenciais, cabendo ressaltar que são conceitos dinâmicos, que variam em relação ao tempo, condições climáticas e localidade, refletindo o caráter holístico do entendimento sami sobre gelo e neve em seu território. (EIRA, 2022)
O congelamento de lagos e rios também é parte importante desse sistema de conhecimento. Por anos, grupos Sami realizaram monitoramento do congelamento desses corpos hídricos de seus territórios, categorizando tipos de congelamentos diferentes, que seriam mais propícios a deslocamentos sobre os corpos hídricos ou que representam perigo para o rebanho e seus pastores. (EIRA, 2022)
Essa relação próxima com o gelo e a neve, bem como a observância de condições climáticas nais quais eles se formam, torna os Sami um grupo especialmente atento às mudanças climáticas, considerando que essas mudanças, no Círculo Polar Ártico, costumam ser muito sentidas pelas comunidades e seus animais, afetando o período de neve, a temperatura no qual o gelo que cobre o solo se forma, o congelamento de corpos hídricos e a profundidade e tempo de permanência das camadas de neve do solo.
Entre os Sami entrevistados, existe um consenso de que a espessura das camadas de neve, o congelamento dos corpos hídricos e as temperaturas nas quais as primeiras nevascas acontecem tem sido muito afetada nos últimos 20 anos. Essas mudanças afetam tanto a história Sami, considerando as geleiras derretidas como livros de história perdidos, como a capacidade dos Sami de se manter em seu território adotando sua forma tradicional de vida.
Yby e Johkta: os Rios e seus Recursos
O acesso à água, como visto até agora, é condicionante para sobrevivência e perspectiva de construção de autonomia de determinada comunidade indígena sobre seu território.
Contudo, é importante observar que a visão da água enquanto um recurso natural a ser usado se aproxima mais de uma visão de mundo moderna e antropocêntrica, onde elementos da natureza importam na medida em que servem às comunidades humanas.
A água, considerando o contexto das comunidades indígenas pesquisadas, aqui surgem como também um elemento não humano em relação com humanos que é capaz de influenciar como os humanos experienciam o território, seu pertencimento a ele, suas identidades coletivas e formas de organização social, para além de sua propriedade enquanto um recurso natural.
Yby
Água e corpos hídricos sempre tiveram papel importante na vida de povos indígenas, em especial de grupos tupi moradores da floresta tropical. Os rios foram e são um habitat privilegiado, considerando que provém alimento e meio de transporte. Um exemplo dessa relação foram os Tupinambá da região do Rio de Janeiro no século XVI, tidos por missionários e colonizadores como excelentes nadadores e pescadores. A época da piracema, reprodução dos peixes, era associada a um período de festas nas aldeias, ressaltando o caráter do rio enquanto fonte de alimento. (PREZIA, 1997)
Essa característica da piracema estar associada a festas na aldeia também ressalta a influência que esse ator não humano tinha nas especificidades culturais deste grupo. Além das festas associadas a piracema, poderíamos citar como exemplo também os Encantados dos rios e corpos hídricos que populam as narrativas de grupos tupi da costa sobre sua relação com rios, mares, lagos e lagoas, como o Ipupiara1, a Iara2 e o Baétata3.
A influência também é percebida nas toponímias de regiões, como é o caso da região do maracanã, batizada dessa forma pelo rio maracanã que banha toda a região. Apesar de hoje ser um rio poluído, é possível imaginar a importância desse curso de água para as populações tupi que habitavam a região da Guanabara durante a invasão portuguesa, grupos Temiminós e Tamoios.
Nesse sentido, a poluição do rio maracanã é um entrave também para construção de uma autonomia coletiva na Aldeia Maraka’nà. O não acesso ao rio enquanto fonte de alimento, água e transporte e a negação do acesso a rede de água e esgoto municipal após a demolição da Lanagro impõe tanto a necessidade de compra de água para consumo, com caminhões pipa, como altera especificidades culturais dos grupo étnicos que ocupam o espaço, sendo uma brincadeira recorrente a necessidade de “ir pescar no rio Extra”, em referência a comprar peixe no supermercado próximo no lugar de pesca-los no rio.
Ainda sim, apesar da descrença de parte dos ocupantes da viabilidade da água do rio, foi construído um poço na aldeia capaz de captar água subterrânea que, apesar de não ser própria para consumo humano, não está tão contaminada quanto a água do rio e pode ser usada para afazeres domésticos, banheiro, regar plantas e oferecer a animais domésticos, reduzindo a necessidade de compra de caminhões pipa.
A decisão da escavação do poço dependeu do compartilhamento de conhecimentos tradicionais indígenas e do Movimento dos Sem Terra (MST). Um líder sem terra, em visita a Aldeia, afirmou que, pela localização dos rios ao redor e da proximidade do mar, haveria um aquífero com água não contaminada pela poluição dos rios e começou a escavação. Usando técnicas de escavação comuns em assentamentos do MST, uma escavação em menor escala porém profunda, foi possível atingir o aquífero e confirmar sua potabilidade.
Após a escavação, em conversas com outras lideranças indígenas e pesquisa, indígenas da Aldeia Maraka’nà descobriram que o tipo de solo que nomeia todo o bairro ao redor, Tijuca, do tupi Ty Iuc, se refere não só a lama, mas a um tipo de argila que é capaz de formar uma barreira entre a água poluída dos rios de cima e o aquífero subterrâneo profundo. Corroborando o conhecimento do líder do MST e coadunando os saberes.
Contudo, mesmo com acesso a água através do poço, a ocupação ainda encontra dificuldades. Como colocado por uma das ocupantes, é possível contar a história da Aldeia Maraka’nà só a partir da água. Bombas, tidas como “coração da Adeia”, necessárias para levar a água do poço para caixas d’água que abastecem os banheiros, são frequentemente furtadas, tornando esse processo de construção de autonomia um processo dinâmico tanto do ponto de vista relacional de uma construção coletiva quanto do ponto de vista prático, da necessidade de conseguir recursos para sobrevivência da ocupação.
Johkta: ellos eatnu
A construção da represa no Rio de Alta afetou tanto os rebanhos de renas, a pesca do salmão e a qualidade do rio e impactou a vida dos residentes da vila Mazé e o ecossistema local.
O projeto da construção da represa representa tanto essa diferença da visão de mundo modernista do Estado Norueguês, do rio apenas enquanto um recurso a ser utilizado, quanto o projeto desenvolvimentista e neocolonial empreendido por este Estado na região Sápmi, marginalizando outras visões de mundo e saberes.
O Estado norueguês entendia a região do vale do rio de Alta como uma área vazia, não utilizada para agricultura, não ligada a nenhuma forma particular de vida e, por tanto, sem valor. Com isso, inundá-lo não seria um problema. (BRIGGS, 2006) Essa visão é contestada por Samis da região.
“Às vezes um terreno não é usado por algum tempo, mas ele pode voltar a ser usado em algum momento. Ele não deixa de fazer parte do território porque não é usado. As vezes é usado só como passagem, mas também tem a sua importância”
E. V. , 73 anos, morador Sami da região
A vila de Mazé era responsável por grandes rebanhos de rena, atividade pastoril intimamente ligada à identidade Sami, e o rio de Alta fazia parte da rota de migração de aproximadamente 40,000 renas. As áreas inundadas eram utilizadas como berçário por parte dessas renas. (BRIGGS, 2006)
Além disso, a construção da usina hidrelétrica implicou na construção de infraestrutura de transporte, estradas e rodovias, que tiveram efeitos secundários na rota de migração das renas da região. (BRIGGS, 2006)
A noção de territorialidade dos Samis é notavelmente distinta do conceito 'ocidental'. Para os Samis, delinear fronteiras entre diferentes lugares é uma tarefa complexa, uma vez que suas atividades estão intrinsecamente ligadas às circunstâncias mutáveis da natureza. Isso significa que as áreas em que realizam suas atividades podem se estender e se sobrepor a territórios pertencentes a outros grupos. Além disso, a reciprocidade social desempenha um papel fundamental em sua vida cotidiana e em suas atividades. (HELANDER, 1999)
O siida, aqui entendido como um conceito territorial, representa essa ligação profunda com o ambiente e a comunidade. Dentro dos círculos Samis, fatores ecológicos, como o comportamento dos animais, as condições climáticas, a neve e as pastagens, são considerados elementos essenciais na definição do território. Da mesma forma, os fatores sociais, como o parentesco e as parcerias, desempenham um papel significativo na forma como os Samis compreendem e estabelecem seu território. Esses aspectos combinados moldam uma perspectiva única de territorialidade, onde a relação entre o ambiente natural e as relações sociais é intrinsecamente interligada. (HELANDER, 1999)
Contudo, a palavra de ordem dos ativistas sami contrários à construção da represa não dizia tanto respeito do impacto na vida humana, mas sim no impacto no próprio rio. As palavras de ordem “Ellos Eatnu” em Sami ou “la elva leve” em norueguês podem ser traduzidas como “rio corre”, exemplificando essa outra relação sami com o rio.
A espiritualidade sami enfatiza a relação e conexão tanto física quanto espiritual entre humanos e elementos da natureza, entendendo o humano não como oposição, mas como parte da chamada natureza, que, para eles, é um conceito relacional que implica reciprocidade e indivisibilidade do humano com a natureza. (PORSANGER, 2010)
A noção da necessidade de movimento também está muito presente na em especificidades culturais sami. Originalmente um povo semi-nômade que acompanhava a migração de renas selvagens, mesmo após sua sedentarização, influenciada tanto pela colonização dos estados escandinavos quanto por mudanças socioeconômicas, continuam acompanhando a migração de seus rebanhos.
O nomadismo, no contexto do Ártico, está intimamente ligada à questão da indigeneidade. Esse modo de vida gera uma relação diferente com o território, entendendo o humano enquanto parte desse território, do que a relação estabelecida entre colonos sedentários, fixos e centralizados na metrópole. (WELD, 2020)
A sedentarização da população Sami foi também um empreendimento estatal. Aos olhos do poder público, a sedentarização no século XIX separava a população Sami da população “civilizada”. Essa sedentarização se deu em um processo intergeracional de assimilação. (KORTEKANGAS, 2020)
Podemos entender também o joik como fenômeno dessa compreensão da necessidade do movimento. Joiks são formas específicas sami de cantar e contar uma relação. Um joik tenta representar a essência de uma pessoa, lugar ou animal através de uma expressão vocal, uma melodia, não necessariamente uma letra fixa.
“Quando você está joiking você não está joiking sobre a montanha ou sobre o lobo, você está joiking o próprio lobo. Por isso o joik é único, cada um tem o seu, como uma digital. Se eu joik para você é diferente de joik para minha mãe. Joik também tem muito da sua relação com o joiking”
E. V. , 73 anos, morador Sami da região
A letra de um joik, caso existe, muda, mas não sua melodia. A letra pode sofrer alterações a depender de quem canta, que imprime na letra sua relação com aquilo que está sendo cantado, seja um lugar, uma pessoa, plantas ou animais, mas a melodia permanece a mesma. O Joik é uma forma tanto de cantar como de contar sobre a vida e a relação desses cantadores com a melodia e com o objeto da canção.
Como um rio, as águas mudam mas seu percurso permanece o mesmo, fluidez e permanência caminham juntos, assim como os fluxos migratórios da população de rena e sami na região.
Evaporação, uma Seca que Traz a Chuva: Conclusão
Os efeitos das mudanças climáticas oriundas do Antropoceno são sentidos de maneira mais abrupta nas latitudes no extremo norte e extremo sul do globo, considerando que a velocidade dessas mudanças é de fato mais acelerada nesses locais.
Essa é não só a perspectiva científica, mas também a sensação das populações sami que habitam esses locais. O aumento da temperatura e, consequentemente, a diminuição das áreas congeladas e das espessuras das camadas de neve afetam os rebanhos de renas cuidados pelos sami.
As condições climáticas severas do Ártico criaram uma seleção natural única e bastante sensível a mudanças. As pessoas que vivem nesses ambientes também desenvolveram sistemas de conhecimento únicos sobre o território que habitam e construíram suas identidades coletivas também a partir da relação com o ambiente. Essas mudanças afetam tanto o clima quanto a própria forma de organização social dessas comunidades.
As mudanças também são sentidas, de maneiras distintas, nas latitudes mais próximas à linha do Equador. Em especial, os efeitos da poluição de rios que marcam a relação de uma sociedade moderna com os elementos não humanos do seu meio, encarados como recursos.
A poluição, consequente sedimentação e diminuição do rio Maracanã é um entrave para construção de uma autonomia coletiva da Aldeia Maraka’nà, alterando sua forma de vida e especificidades culturais de grupos que já foram pescadores e hoje se veem forçados a comprar peixes e água de fornecedores externos.
Essas experiências Sami e também da Aldeia Maraka’nà com mudanças climáticas remetem a também outras experiências comuns desses dois grupos: a colonização, marginalização, exploração e assimilação forçada. As mudanças trazidas pela colonização, tanto ambientais quanto societárias, acarretaram em marginalização desses grupos minoritários, exploração de terras e pessoas e assimilação involuntária desses povos.
Contudo, como aponta Mignolo (2008), a lógica opressiva de colonialidade produz também uma energia em povos marginalizados, invisibilizados e expropriados de desconfiança e reação frente à dominação. Essa energia pode se expressar em diversas formas de resistência, mais ou menos abertas contra a lógica colonial.
Uma dessas formas de resistência comuns tanto aos Sami quanto à Aldeia Maraka’nà são as ressurgências étnicas, retomadas e revitalizações da cultura. Nos últimos anos, Sami tem experienciado um movimento de revalorização de especificidades culturais e relações com o território, assim como o movimento indígena no Brasil tem realizado os movimentos de retomada de território, estruturados pela questão da retomada também da identidade étnica.
Esses movimentos implicam numa mudança na forma de ver o mundo, alternando de uma forma mais Moderna e antropocêntrica de encarar o meio ambiente, vendo enquanto um recurso, para uma lógica mais relacional e holística de compreensão do mundo, ultrapassando a oposição hierárquica entre homem e natureza e, com isso, estabelecendo outras relações com o meio que afetam tanto elementos não humanos como conformam identidades coletivas de grupos humanos.
Considerando a necessidade de se combater as mudanças climáticas para se garantir a sobrevivência da humanidade enquanto espécie, essa mudança de perspectiva se mostra cada vez mais urgente e necessária.
O artigo se propôs a fazer o caminho da água, em seus variados estados físicos; gelo, água e, por fim, evaporação. É evidente como a evaporação, e a consequente seca, afeta a vida em diferentes partes do globo. Contudo, mais do que a seca de rios e evaporação de geleiras, o Antropoceno trouxe também a seca e desaparecimento de formas de vida, através do colonialismo e assimilação forçada de povos.
As recentes mobilizações indígenas de retomada e revitalização, porém, nos lembram que, assim como a evaporação não é o fim da água, mas parte de um movimento cíclico que traz a precipitação, os movimentos de retomada e revitalização de outras formas de vida podem mostrar forma de estabelecer novas relações sustentáveis com a natureza e, assim como a chuva, permitir a continuidade da vida no planeta.
Referências
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Segundo a cosmologia Tupi, o Ipupiara era um homem-marinho que vivia no litoral do Brasil. Seu nome pode ser traduzido como “aquele que está dentro d’água”.↩︎
Iara ou Mãe d’Água que seduzia homens e os afogava em rios.↩︎
Criatura parecida com uma cobra de fogo que aparecia nas praias à noite. Seu nome pode ser traduzido como “coisa de fogo”↩︎